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CINEBLOG

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Crítica: "The Visit" (2015), de M. Night Shyamalan

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Cansado de ser um dos sacos de pancada favoritos de Hollywood, M. Night Shyamalan pegou na massa que amealhou a dar o nome ao vídeo das últimas férias da família Smith e resolveu voltar ao maravilhoso mundo do cinema independente.

O resultado é suficientemente sólido para virar algumas cabeças. Os miúdos têm piada, o mistério funciona (pelo menos durante a maior parte do tempo) e o realizador parece ter finalmente aprendido a não se levar demasiado a sério. É verdade que alguns dos tiques de "autor" continuam lá: o ritmo nem sempre é o mais eficaz e o maldito twist subnutrido teima em aparecer (caso se estejam a perguntar, o twist subnutrido é aquele que não é devidamente alimentado antes da revelação. Todo um clássico do storytelling do nosso amigo M. Night).

No entanto nota-se que é um filme com alma, feito em lume brando na cozinha da avó, sem a pressão de agradar à clientela e, sobretudo, sem o filho da mãe do chef estrangeiro que não saber fritar um ovo a gritar-nos aos ouvidos.

Da mesma forma que não se pode pedir o regresso imediato às medalhas a um campeão olímpico que passou os últimos anos aflito com o menisco, não se pode pedir ao M. Night Shyamalan que o "The Visit" seja mais do que aquilo que é. No fundo todos queríamos que fosse melhor. Um regresso em grande, daqueles em câmara lenta, ao som de Vangelis. Mas já nos podemos dar por feliz por não ser o "Diary of the Dead" (chiça!...).

Agora só falta que eles percebam que o found footage já deu o que tinha a dar. A sério. Parem com isso.

(***)

"The Hobbit: The Battle of the Five Armies" (2014), de Peter Jackson

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Três anos e uma carrada de minutos depois, a segunda incursão de Peter Jackson pela Terra Média chegou ao fim. Valeu a pena? Ou será que devemos aplicar aqui a velha máxima do "nunca voltes a um lugar onde foste feliz"?

"The Hobbit", a trilogia, é um caso complicado de analisar. Se por um lado é óbvio que foi criada para sacar dinheiro à custa da nostalgia (dois filmes seriam mais do que suficientes para contar o que aqui se passa), por outro é inegável que foi trabalhada com uma atenção ao detalhe e um carinho pela material de origem muito raro hoje em dia. 

Tudo o que tornou a trilogia original num clássico moderno continua presente. A Terra Média continua a ser um lugar visualmente arrebatador e os seus habitantes continuam igualmente entranháveis. O problema é que desta vez, e muito por culpa das constantes referências aos filmes anteriores, ficamos com a sensação que ainda não há nada de realmente importante a acontecer.

Se na trilogia anterior sentiamos a urgência e o perigo à espreita em cada esquina, agora que chegámos ao fim desta nova demanda (e esse sentimento agrava-se neste último capítulo por razões óbvias) sentimos apenas que o pior ainda está para vir e que nada do que aqui se passou é importante na grande ordem do universo Tolkiano.

"The Hobbit", tal como Tolkien o escreveu, é um conto sobre a descoberta de um mundo novo por um protagonista inesperado. É uma pequena história de aventura, nem demasiado imponente nem demasiado urgente. Aqui foi tratado como uma nova trilogia do anel, demasiado épica para o seu conteúdo.

Feitas as contas, "The Battle of the Five Armies" acaba por ser o capítulo mais concentrado desta nova trilogia. Os eventuais problemas de ritmo dos capítulos anteriores ficaram para trás (felizmente este é o mais curto dos três filmes), as pontas foram devidamente cortadas e temos até direito a um confronto épico no gelo que vai certamente ficar entre os mais memoráveis de toda a saga. 

Sim, é certo que não deixa de ser uma viagem de turismo pela Terra Média, mas é uma viagem fantástica e reconfortante que, apesar das suas falhas, nos deixa com uma vontade indiscritível de tirar os DVDs da trilogia anterior do armário. E isso é o melhor que podemos pedir a uma prequela.

***

Interstellar (2014), de Christopher Nolan

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Depois de ter sido tantas vezes acusado de não saber filmar sentimentos, Chris Nolan tenta provar em quase três horas que o amor é o que faz o universo funcionar.

Como três horas ainda é muito tempo (pelo menos enquanto mantivermos os pés assentes no nosso pequeno planeta azul), Nolan trocou a autoestrada pela estrada nacional e aproveitou para apreciar as vistas e comer um cozido no Canal Caveira.

Através de uma estrutura narrativa bem definida (provavelmente os três atos mais óbvios da sua filmografia), Nolan reflete sobre o que nos faz humanos, o nosso papel na sociedade, aquilo que seríamos capazes de fazer em condições extremas e o amor em geral. Nenhum dos temas é especialmente original no cinema mainstream, mas o tratamento Nolan eleva-os da mediocridade a que estamos habituados.

Lá pelo meio vai brincando com conceitos quânticos de encher o olho (apesar de não conseguir fugir de alguns paradoxos capazes de levar à destruição da nossa galáxia), com a ajuda de um Matthew McConaughey em grande forma e de um monolito cheio de personalidade.

Visualmente poucos foram capazes de mostrar o espaço desta maneira. O universo deixou de ser o habitual imenso vazio para se transformar num perigoso oceano habitado por adamastores quânticos. 

Mas como Nolan é Nolan, também não faltam os inevitáveis excessos expositivos - como se se visse obrigado a explicar constantemente o que se está acontecer, não vá o diabo tecê-las - e alguma atrapalhação narrativa quando tenta cortar as pontas soltas. 

Talvez seja demasiado metódico e calculista para algumas ambições emocionais, mas é um tipo corajoso e talentoso que quando acerta, acerta em cheio. Talvez por isso as suas falhas deixem um sabor tão amargo.

Felizmente isso não acontece muitas vezes.

****

"Teenage Mutant Ninja Turtles" (2014), de Jonathan Liebesman

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Depois de muitas polémicas e protestos, o reboot das Tartarugas Ninja lá acabou por estrear. Apesar de confinado ao papel de produtor, o infame Michael Bay é tido como o grande responsável pelo filme e acaba mesmo por ser a principal influência nas poucas marcas de estilo que podemos encontrar por aqui.

O grande problema deste "Teenage Mutant Ninja Turtles" está longe de ser o design dos protagonistas (curiosamente a opção de individualizar cada personagem até acaba por torná-los mais interessantes). Também não podemos dizer que o produto final (sim, porque não é mais do que um produto, como os bonecos que pretende vender) cospe na infância de quem cresceu nos anos 80/90, porque ao contrário do que se defende por aí, o material de origem também não era grande coisa. 

O maior pecado deste filme não é não ser um bom filme (porque ninguém estaria à espera que o fosse). O que realmente o mata é nem sequer ter coragem para ser um mau filme.

Este "Teenage Mutant Ninja Turtles" é um produto banal, genérico, que faz com algum brio o pouco que se propõe a fazer, mas que falha redondamente à hora de despertar qualquer tipo de emoção.

Por onde anda o Vanilla Ice quando precisamos dele?

**

"American Hustle" (2013), de David O. Russell.

Aquilo que mais me agrada no cinema enquanto arte (e são muitas as coisas que me agradam), é a forma como se conseguem construir narrativas que funcionam muito para lá daquilo que efetivamente nos é contado. O cinema vive de subtilezas, de olhares, de expressões e de silêncios. Nos bons filmes, nada é deixado ao acaso.

"American Hustle" é um desses filmes. Por debaixo de uma capa de Scorsese barato, ultra-estilizado, a roçar um trabalho de final de curso, há um mundo de subtilezas. Enquanto o David O. Russell vai brincando com a câmara e imitando os truques dos crescidos, o elenco toma conta do filme e com ele chega-nos uma humanidade acima da média. Este é um filme de atores. Ponto. Provavelmente o exemplo mais flagrante dos últimos anos. Mas comecemos pelo início.

Christian Bale é um monstro, faça o que faça, mas sobretudo é um monstro que não tem medo de se eliminar da equação. Não é fácil desaparecer atrás dos personagens, mas Bale domina a arte como poucos. Irving Rosenfeld não é Christian Bale. Irving é um perfeito desconhecido. É um indíviduo frágil de moral dúbia mas bom coração que nos vai conquistando à medida que a narrativa se vai desenvolvendo. É um personagem subtil, escondido atrás de uma aparência rídicula (no fundo como o próprio filme) e Bale sabia melhor que ninguém que essa aparência, para além de acrescentar várias camadas de profundidade ao personagem, seria essencial para o tornar credível.

Bale é o elemento central deste batido de enganos e revelações, mas não está sozinho. Amy Adams acrescenta o mistério, Bradley Cooper a ambição descontrolada e Jennifer Lawrence a loucura e a frescura dos bons batidos. Juntos conseguem criar uma das mais saborosas refeições do ano cinematográfico.

A questão que se coloca é: de que forma deveremos encarar a realização de O. Russell? Estamos perante uma homenagem tarantinesca a Scorsese? Ou apenas uma cópia descarada de um género?

Eu aponto para a primeira. Não que reconheça no David O. Russell o talento indiscutível que a Academia norte-americana teima em atribuir-lhe, mas porque a surpreendente subtileza do argumento não deixa grandes dúvidas sobre as suas intenções. Não tem a criatividade nem a distância do Tarantino, mas não se saiu mal.

(***1/2)

12 Years a Slave (2013), de Steve McQueen

Quando vemos a mestria com que Steve McQueen controla a câmara naquele imenso e brutal plano sequência algures no terceiro ato de "12 Years a Slave", é difícil acreditar que esta é apenas a terceira longa metragem do realizador londrino. 

Há muita coisa para gostar em "12 Years a Slave", a começar pela escolha de Chiwetel Ejiofor . Para que um filme destes funcione (e por "destes" entenda-se "dramalhão histórico baseado numa história verídica relativamente desconhecida"), o protagonista tem de se transformar no seu personagem. Isso só acontece se a) o protagonista for um ator do caraças e b) não soubermos o nome dele de cor. Ora, Ejiofor, para além de ter um nome que me obriga constamente a ir ao IMDb fazer copy paste, consegue destruir-nos emocionalmente com um simples franzir de testa. O seu Solomon Northup é uma subtil mas poderosa construção emocional, só ao alcance dos melhores.

Em termos globais isto não serviria de nada se Ejiofor não fosse apoiado por um elenco de secundários sólido. Paul Giamatti, Paul DanoBenedict Cumberbatch, embora não tão presentes, ajudam a construir de forma exemplar a textura geral desta narrativa, com os dois primeiros a representar a face mais cruel da escravatura e o terceiro a encarnar o homem nobre mas frágil, rendido a uma sistema que o pode esmagar a qualquer momento. 

A Michael Fassbender, colaborador de longa data de McQueen, calhou-lhe o imprevisível e assustador Edwin Epps, o verdadeiro nemesis emocional de Northup. Que Fassbender era uma besta (no melhor dos sentidos), já todos sabíamos. Mas não deixa de ser surpreendente o que este tipo nos consegue fazer sentir em tão pouco tempo.

Do lado feminino o destaque vai para Lupita Nyong’o, esta sim verdadeiramente desconhecida, que dá rosto a Patsey, o personagem mais trágico do filme (mais ainda que o próprio Northup), que teve o azar de se transformar no objeto de desejo do seu dono e, consequentemente, alvo dos ciúmes de uma cruel Sarah Paulson.

Se tudo isto é essencial para tornar "12 Years of Slave" num dos filmes do ano, aquilo que mais me agradou foi a forma crua com que McQueen não teve medo de contar uma história feita para os Óscares, despindo-a de qualquer artefacto emocional. Onde alguns pornógrafos da desgraça como Lee Daniels ou Iñarritu optariam por um grande plano cravado de lágrimas e uns violinos deprimidos a chorar em fundo, McQueen escolhe planos afastados, coloridos apenas com os sons do quotidiano, que fazem brilhar o trabalho de fotografia de Sean Bobbitt. Há um afastamento emocional, a roçar o documentário, que não nos deixa, em nenhum momento, sentir manipulados.

"12 Years a Slave" é um objeto único. Emocional sem ser lamechas, duro sem ser gratuito, que dá uma cara e um nome a uma das facetas mais cruéis da humanidade. 

(****)

Gravity (2013), de Alfonso Cuarón

Alfonso Cuarón não é certamente o mais prolífico dos cineastas (a última vez que vimos uma longa-metragem assinada por ele decorria o ano da graça de 2006). Mas quando se mete atrás das câmaras é impossível não ficarmos rendidos ao seu talento.

Depois de definir as linhas gerais daquilo em que viria a tornar Harry Potter e de nos transportar para um futuro próximo assustadoramente infértil, Cuarón resolveu levar-nos numa viagem espacial.

"Gravity" é um blockbuster minimalista (sim, isso existe) que constrói a narrativa em redor de uma gigantesca metáfora da morte/renascimento, com cordões umbilicais e alusões visuais ao útero. Apesar de interessante, é uma abordagem bastante óbvia que acaba por querer parecer mais profunda do que aquilo que realmente é.

Aquilo que faz realmente a diferença em "Gravity" é o departamento técnico liderado por Cuarón.

Se o filme é minimalista ao nível narrativo, em tudo o resto é gigante. Dos movimentos de câmara perfeitos (com uma interessante predileção pela primeira pessoa, piscando o olho aos videojogos), ao som claustrofóbico, passando pelo imponente trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki (que é atualmente o diretor de fotografia preferido de Mallick), tudo funciona na perfeição para nos fazer mergulhar de cabeça numa situação extrema recheada de tensão.

Não é o mais complexo dos filmes espaciais (desenganem-se aqueles que esperavam um segundo "2001"). E também não é, como se poderia esperar pelo elenco reduzido, um filme de atores (tanto Clooney como Bullock estão bem mas o argumento não os deixa brilhar). "Gravity" é sobretudo um portento técnico, magistralmente dirigido e que merece, sem sombra de dúvidas, ser visto no grande ecrã. 

(***)

Man of Steel (2013), de Zack Snyder

Não tenho, nem nunca tive nenhum problema com o cinema de entretenimento. Chamem-me ingénuo, mas acredito num universo onde o último do Michael Bay convive harmoniosamente ao lado do último do Malick, sem conflitos nem insultos de parte a parte.

No entanto, quando um filme que quer ser Malick, passa 70% do tempo a ser Michael Bay, somos capazes de ter um problema.

A Warner e a DC parecem ter encontrado a filosofia com que querem iniciar uma nova era nas salas de cinema. Com Christopher Nolan à cabeça, a DC está empenhada em criar um universo estável e credível, onde os seus super-heróis, mais do que Deuses inquebráveis, são criaturas emocionalmente complexas que lutam sobretudo contra os seu próprios fantasmas.

Mas a DC tem um pequeno problema. Um problema chamado Marvel

A Marvel sabe o que quer e está a borrifar-se para os conflitos existenciais dos seus personagens. A Marvel é para os que procuram divertimento puro e efeitos visuais de última geração, e ficou provado nas bilheteiras que isso dá dinheiro. Dá tanto dinheiro que a DC não pode simplesmente ignorar essa faceta e acaba por acobardar-se ao ponto de desfigurar uma premissa com potencial para ser algo único.

Na sua essência, «Man of Steel» é um filme sobre o poder e a educação. É a história de um homem dividido entre os ensinamentos e a integridade do pai adotivo e o grande plano que lhe foi traçado pelo pai biológico. É uma reflexão fragmentada e pessoal sobre um deus em desenvolvimento, extraordinariamente bem filmada e recheada de questões pertinentes.

No entanto, é também um espalhafatoso espetáculo visual, larger than Michael Bay, que acaba por não ter coragem de responder às questões que levanta.

Se por um lado nos fala de moral e de ética, por outro mostra-nos explosões e destruição gratuita. Se por um lado quer que acreditemos que o protagonista se importa com a raça humana, por outra vemos esse mesmo protagonista a participar na destruição de uma cidade teoricamente cheia de vida. Se por um lado temos um elenco forte e carismático, e uma reinvenção corajosa de um super-herói com quase 80 anos de história, por outro temos um romance mal atado que acaba por cair no mais óbvio.

Em que ficamos? Sinceramente não sei. Vamos esperar pela sequela. Felizmente acredito na virtude das boas ideias.

***

Blogue a 24fps que não necessita de óculos 3D. Online desde 2003.

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