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Crítica: "Alien: Covenant" (2017)

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O franchise "Alien" é tanto uma série de filmes sobre um bicho com duas bocas que mata gente, como "Night of The Living Dead" e respetivas sequelas são filmes sobre mortos devoradores de cérebros. O bicho interessa, claro. É inegavelmente uma criatura fascinante, que representa ao mesmo tempo o medo e a atração pelo desconhecido. Mas mais do que o fim em si mesmo, é o elemento ao redor do qual se exploram e desenvolvem outros géneros. 

"Alien: Covenant" é a sequela mais ou menos direta de "Prometheus", provavelmente o capítulo mais ambicioso de toda a saga. O filme de 2012 levou a mitologia da série a todo um novo patamar, levantando questões, apontando caminhos e sussurando respostas. 

Aviso à navegação: embora tenha tentado fugir às revelações desnecessárias, torna-se difícil falar de alguns aspetos de "Alien: Covenant" e de "Prometheus" sem referir factos que podem ser considerados spoilers. Avancem à cautela.

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Crítica: "Get Out" (2017)

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Aquilo que mais me impressionou em "Get Out", obra primogénita do até agora comediante Jordan Peele (digo até agora porque a partir deste momento todos vamos olhar para ele com outros olhos), foi o facto de, apesar dos pequenos problemas estruturais e do ambiente marcadamente surreal, é um filme habitado por gente a sério. Não há decisões idiotas nem falsas dúvidas dramáticas. Os personagens agem, falam e raciocinam como qualquer um dos espetadores, e isso, num género em que é tão fácil cair em lugares comuns, é de louvar.

No entanto, essa é precisamente a razão que está por detrás do seu principal problema. "Get Out" é incapaz de aguentar o mistério muito tempo. Simplesmente não o poderia fazer sem sacrificar a sua metódica lógica interna e a credibilidade dos personagens. 

Ao tentar reproduzir uma estrutura talhada para um episódio clássico da "Twilight Zone" (30 minutos) num filme de quase duas horas, acaba por criar desequilibrios inevitáveis. Temos um primeiro ato e um payoff curtos e eficazes que contrastam com o recheio demasiado massudo do segundo ato, sobretudo se tivermos em conta que a solução do mistério torna-se óbvia logo no início do ato, tanto para nós como para os personagens. Isso leva a que grande parte do filme acabe por servir apenas para aprofundar a crítica social de uma forma demasiado óbvia e panfletária.

Obviamente que isso não retira os méritos ao seu realizador/argumentista, que consegue aqui um interessante thriller social (expressão usada pelo próprio) cuja mensagem, interpretações e mestria técnica são suficientemente fortes para aguentar a tensão, sem nunca precisar de recorrer a mecanismos de choque fácil como o gore ou o torture porn.

Que venha agora o próximo, senhor Peele.

***

Crítica: "Rings" (2017)

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Vamos começar pelo fim porque também não há muito mais para dizer: "Rings" é mau. É bastante mau, aliás.

Nem vou falar dos atores e da forma como a protagonista se esfolava para tentar cuspir uma pronúncia americana decente. Nem sequer me vou preocupar com o crime que é desperdiçar o Vincent D'Onofrio numa bodega desta calibre.

Aquilo que me deixou à beira de uma crise de acne foi a forma descontraída, a roçar o insulto, com que nos tomaram por parvos. O segundo filme também não era grande coisa, mas pelo menos teve a decência de levar a sério o primeiro. Este nem isso consegue fazer. Afinal há mais vídeo dentro do vídeo. Porquê? Ora, porque não sabíamos como continuar a história, claro. Mas a Samara é uma vítima que quer ser salva? Ok, apesar do primeiro filme já ter dito que não, vou acreditar. Afinal não. Em que ficamos? Volta tudo ao mesmo.

A determinada altura, o filme até nos mostrou o caminho dos tijolos amarelos. Como funcionaria o vídeo na era das redes sociais e dos vídeos virais? Fazer uma cópia está a dois cliques do rato e desde que tenhamos amigos estamos a salvo. Mas que consequências a longo prazo teria isso? Até nos arranjou uma vedeta daquela série dos nerds para ficarmos contentes e tudo.

Mas tal como a Samara, também este conceito foi atirado para dentro de um poço onde ficou lentamente a afogar-se em litros clichés e sustos programados. No final, com um último esforço de braços, ainda conseguiu vir à tona e dizer as últimas palavras, mas já era tarde de mais.

E assim, meus amigos, é como se mata um franchise.

*

Crítica: The Void (2016)

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Há duas coisas que nunca vão passar de moda: os anos 80 e os filmes de terror. Então se estivermos a falar de juntar as duas coisas, temos material capaz de sobreviver a duas extinções em massa.

"The Void" é um filme feito por quem cresceu a ver (e a adorar) os filmes de terror dos 80 e quer partilhar essa experiência com o mundo. Não é um filme original (nem o pretende ser) e as influências dos clássicos de Carpenter e companhia saltam imediatamente à vista.

Para tornar essa homenagem mais evidente, a dupla de realizadores Jeremy Gillespie e Steven Kostanski optou por abdicar quase por completo do CGI e abraçar os efeitos especiais "artesanais" (ainda não consegui arranjar uma tradução para a expressão "practical effects" que me convença). Isso, por si só, acaba por vender o filme e fazê-lo destacar-se entre as hordas de outros filmes que tentam ressuscitar a série B dos 70/80 mas que acabam por chocar de frente com o CGI manhoso dos 90. 

"The Void" é orgânico e old school e consegue transformar um defeito, que em tempos associávamos a produções baratas, num entranhável feitio.

As representações são competentes, a fotografia é bastante sólida (sobretudo se pensarmos que é quase tudo filmado à noite - ou pelo menos para parecer de noite) e é bom ver que ainda há quem faça filmes com 90 minutos.

Feitas as contas, o maior defeito acaba mesmo por ser o argumento, que tenta criar e desenvolver uma mitologia demasiado complexa para o curto espaço de tempo de que dispõe. Ficam algumas pontas soltas e demasiadas questões no ar, que, apesar de não serem suficientes para estragarem a experiência, acabam por torná-la menos eficaz.

Se sonham com o dia em que o Carpenter e o Clive Barker tenham um filho fecundado pelo próprio Cthulhu, não vão sair desapontados.

***

 

Crítica: "Suicide Squad" (2016), de David Ayer

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"Num sistema hierárquico, todo funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência". Esta frase, conhecida como Princípio de Peter ou Princípio da Incompetência, e que foi enunciada nos idos anos 60 do século passado por um indivíduo chamado Laurence Peter, pode ser utilizada para explicar o grande problema de "Suicide Squad", um filme cujo maior pecado foi ver-se promovido a um patamar de exigência para o qual não tinha competências.

Não é que o mais recente filme do Universo Cinematográfico da DC (DCCU) seja horrível (porque não o é). "Suicide Squad" é sobretudo insatisfatório. Isso deve-se em grande parte às expetativas completamente irrealistas que lhe foram sendo atribuídas ao longo dos últimos meses, muitas delas quando já se encontrava na sala de edição. Para além de se ver obrigado a ser o salvador do DCCU  (depois da má receção de "Batman v Superman"), tinha ainda de ser a resposta da DC ao "Guardians of the Galaxy" ao mesmo tempo que piscava o olho ao "Deadpool". O resultado? Um produto finalizado em cima do joelho, sem unidade, com demasiados problemas de edição e um ritmo bipolar (há uma cena num bar, algures no meio do segundo terço, onde a falta de timing se torna particularmente evidente).

Graças à incompetência do sistema de produção, um filme que tinha tudo para ser uma experiência única, tornou-se num ensaio sobre a frustração: é frustrante porque vemos uma hierarquia a ser definida pela dimensão dos atores e não por personagens (sem desprimor para a Margot Robbie ou para o Jared Leto, mas trocava toda aquela trapalhada com o Joker por mais tempo de ecrã para o El Diablo.). É frustrante porque precisamos de mais tempo para desenvolver os protagonistas e vemos tempo extra a ser usado para introduzir personagens cujo único objetivo é satisfazer a necessidade de fan service. É frustante porque vemos um talentoso David Ayer de mãos atadas a defender irrepreensivelmente um produto problemático pelo qual nem é o maior responsável. E é sobretudo frustante porque apesar de tudo isto consegui divertir-me a ver o raio do filme.

Há tantas indícios de coisas boas a acontecer (a equipa tem química, a amostra de alguma backstory é apelativa, a caracterização da Amanda Waller é intrigante, algumas opções estéticas funcionam de forma irrepreensível) que não podemos deixar de pensar no que poderia ter sido se as coisas tivessem corrido de maneira diferente.

***

Crítica: "Stranger Things" (Temporada 1/2016)

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"Stranger Things" é a prova de que a inspiração é infinitamente melhor do que a adaptação.

Inspirado por dezenas de fontes diferentes (a mais óbvia é o cinema familiar/fantástico dos anos 80, mas podem oscilar entre um videojogo do final dos anos 90 e um filme com um par de anos), MattRoss Duffer criaram uma deliciosa lufada de ar reciclado que nos prende do primeiro ao último episódio.

O mistério funciona, graças a uma narrativa limpinha, sempre direta ao assunto, que conta com a preciosa ajuda de um conjunto de jovens atores desconhecidos, que em breve irão deixar de o ser (os putos são os maiores, para quê estar com rodeios?). A banda sonora "é do caraças", não apenas pelos sintetizadores "carpenterianos", que ajudam a tornar a experiência muito mais imersiva, mas também pela extraordinária mixtape que junta nomes que vão desde os The Clash a Vangelis. E a nostalgia nunca foi tão bem tratada, com todos os elementos intertextuais (que podem ir do simples poster à reprodução integral de uma cena) colocados milimetricamente em cena para apelar ao viciado em clubes de vídeo que há em todos nós.

Mas talvez o mais interessante de "Stranger Things" seja a forma como os autores, seguindo as pisadas de um tal de Tarantino, partem de situações e de personagens criadas noutros tempos e às quais reagimos instintivamente, como suculentos bifes destinados a despertar o nosso cão de Pavlov interior, e conseguem trocar-nos as voltas com resoluções e evoluções inesperadas.

"Stranger Things" é um objeto único, com uma alma própria, construído em cima de um cenário familiar mas ainda capaz de nos surpreender. Assusta quando tem de assustar e é enternecedor quando tem de o ser.

Não deixa, no entanto, de ser curioso (e sintomático) que em pleno século XXI,  a melhor homenagem do momento à 7.ª arte venha de uma série de televisão.

****

P.S. Já disse que a banda sonora é do caraças?

Crítica: "Deadpool" (2016), de Tim Miller

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"Deadpool" é tudo o que todos gostaríamos de ter sido em determinado momento das nossas vidas. Tem pinta, é irreverente e um nadinha (quase nada!) perverso. Não é portanto de estranhar o sucesso estrondoso que tem alcançado mundialmente.

Neste segunda aparição no cinema (vamos esquecer o "X-Men Origins: Wolverine", ok?), "Deadpool" abraça finalmente a essência do livros de banda-desenhada que o trouxeram ao mundo e não hesita em exibir despudoradamente uma dose cavalar de ultra-violência auto-consciente, complementada pelos constantes jogos narrativo com o espetador.

Os fãs agradecem e os que até agora desconheciam o personagem tem aqui a oportunidade perfeita para saírem da ignorância. No entanto, a grande virtude de "Deadpool" é trazer até ao mainstream a ideia de que o universo dos super-heróis pode ser muito mais criativo e maleável do que aquilo que a Marvel e a DC nos têm feito acreditar nos últimos anos.

Talvez por isso, e por acreditar no potencial quase ilimitado do personagem, não consiga esconder esta terrível frustração que me assola o espírito desde o momento em que meti um pé fora da sala de cinema.

Bem feitas as contas, e passado o momento "wow" inicial, "Deadpool" é um filme bastante limitado. O vilão é fraquito, a resolução do enredo é previsível e o humor +18 acaba por perder a irreverência e cair na banalidade a partir de certo ponto. Podia-se argumentar que é uma paródia/desconstrução dos filmes de super-heróis e que a utilização dos clichés é propositada. Sim, em muitas partes o argumento é auto-consciente das suas falhas e chega mesmo a denunciar algumas (a falta de orçamento para contratar outros X-Men, por exemplo). Mas esse parece-me ser mais um caso de damage control ao estilo de "vou gozar comigo antes que os outros o façam", do que uma solução realmente criativa.

"Deadpool" critica convenções sem apresentar alternativas e arrasa soluções que acaba por adoptar envergonhadamente. Infelizmente estamos muito longe da paródia de género de um "Last Action Hero" ou até mesmo de um "Kick Ass".

Para além do estilo inusitado (que nos deixa inegavelmente bem dispostos), o mais interessante de "Deadpool" acaba mesmo por ser a tal história de amor pouco convencional promovida nos trailers de São Valentim (a química entre o Wade e a Vanessa funciona na perfeição) e a revelação de que Ryan Reynolds, um indíviduo que até agora considerava ter o carisma de um tijolo desbotado, é afinal um tipo com bastante piada.

***

Crítica: "Spectre" (2015), de Sam Mendes

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Não é fácil fazer um novo filme de Bond. Para além de competir com todo o cinema de ação, a saga compete com ela própria, numa luta constante entre os acérrimos imobilistas militantes e aqueles que exigem um Bond atual, com relevância social e cultural.

Em "Spectre" os produtores resolveram jogar pelo seguro e apostar novamente numa fórmula que tanto dinheiro deu em 2012, acabando por ignorar o essencial do filme anterior. "Skyfall" era para ser único. Uma primeira e última incursão ao passado do protagonista, preparando-o para um futuro onde Bond podia ser finalmente Bond porque já não tinha mais nada perder.

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