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Amour (2012), de Michael Haneke

Um pouco à semelhança do conceito abstrato que lhe serve de título, já muito foi escrito e falado sobre o mais recente de Michael Haneke. Amour faz parte da lista de melhores do ano de quase todos os críticos que se prezem, ganhou um amontoado impressionante de prémios e distinções e é dado como o mais do que certo vencedor do Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro. Por isso, se não o foram ver até agora, não será o meu texto que vos fará mudar de opinião. No entanto, e como às vezes também faz bem sair do ambiente controlado de Hollywood, resolvi tentar a minha sorte com alguns parágrafos rápidos.

É um facto: Amour não deve ser visto de ânimo leve - a decisão de o estrear nesta quadra tem tanto de irónico como de cruel. É um filme sobre a velhice e a degradação do corpo humano, uma realidade inexorável que nos arromba (literalmente) a consciência quando ainda nem tivemos tempo de aquecer a cadeira.

Tal como seria de esperar de Haneke (um cineasta conhecido pela forma gelada como manipula a câmara), aqui não há músicas lamechas, nem grandes planos, nem zoom ins, nem zoom outs. Os mecanismos manipuladores da linguagem cinematográfica ficaram reduzidos ao vulgar campo-contra-campo e a um par de composições musicais clássicas enquadradas na narrativa. Tudo resto são planos fixos - ou quase - onde Haneke nos mostra aquilo que não queremos ver.

Numa altura em que os found-footage estão na moda, podemos estabelecer uma analogia que não estará muito longe do resultado final: imaginem uma câmara abandonada durante meses no quarto de um lar da terceira idade. Agora acrescentem-lhe o amor incondicional de alguém que partilhou uma vida ao lado de outra pessoa e que lhe custa a aceitar que chegou a hora de a deixar partir.

Voilá. Temos um dos filmes do ano.

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The Hobbit: An Unexpected Journey (2012), de Peter Jackson

A minha relação com a trilogia do anel do Peter Jackson esteve longe de ser amor à primeira vista. Quando fui ver o primeiro filme ao cinema, decorria o ano da graça de 2001, achei-o um pastelão imenso, demasiado épico, demasiado longo e com as ideias pouco claras. Um ano depois tentei outra vez e a coisa já correu melhor. O segundo capítulo era mais negro, menos solene e sobretudo mais mexido. Não era o filme da minha vida, mas já conseguia perceber onde Jackson queria levar as coisas. Por isso, um ano depois, lá estava eu outra vez para ver como tudo iria acabar. Gostei mas não me encheu as medidas. Aquele final demasiado arrastado recordou-me tudo aquilo que não tinha gostado no primeiro capítulo.

Foi só uns anos mais tarde, em 2006, que revi pela primeira vez os três filmes no sossego do lar, sem pipocas à vista e sem ninguém a bater-me constantemente nas costas da cadeira. E então tudo ficou claro: o mundo criado por Tolkien (e pintado por Peter Jackson) é demasiado orgânico e complexo para ser revisitado parcialmente apenas uma vez por ano. Com hiatos tão longos, os pequenos detalhes que tornam a trilogia tão excecional e coesa perdem-se no tempo, ficando apenas uma mancha difusa de diálogos palavrosos e cenas de ação. A Terra Média de Peter Jackson é um mundo extraordinário, com cenários de cortar a respiração, um ambiente ímpar e personagens carismáticas.  Vive muito para além da estória que conta e é muito mais do que meia dúzia de chavões repetidos até à exaustão nos fóruns da especialidade.

Dizer que este Hobbit é mais do mesmo é o maior elogio que se lhe pode fazer. Sim, é um facto: é mais do mesmo. E então? Não seria bom regressar à casa de infância e encontrar tudo exatamente como recordam? Não apenas fisicamente, mas sobretudo emocionalmente: os mesmos cheiros, as mesmas pessoas, as mesmas emoções?

The Hobbit: An Unexpected Journey é isso mesmo: um regresso a um sítio onde fomos felizes e onde tudo está exatamente como nos lembramos. A nova aventura tem muitos paralelismos com os filmes anteriores, é certo, e provavelmente só existe para tentar explorar o sucesso da trilogia do anel (que outra justificação existe para dividir um livro tão pequeno em três filmes de três horas?). Mas foi tudo construído com uma atenção tão grande ao detalhe (os efeitos visuais fazem o James Cameron e os seus bichos azuis corar de vergonha) e, sobretudo, com tanto amor pela obra original, que é impossível não ficar novamente rendido aos encantos da Terra Média, que continua a supreender e a fascinar apesar da bagagem que carrega (alguém falou em gigantes de pedra?). Por outro lado, todo o trabalho de extensão do material de origem (foram-se recuperar personagens aos apêndices do livro e se estabeleceram pontos de contacto com a aventura do Frodo) foi muito mais complexo e digno de admiração do que simplesmente adaptar três livros em três filmes.

Da minha parte, que venham mais dois. E depressa.

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P.S. Não o vi a 48fps por isso não me posso manifestar sobre o assunto. Mas tendo em conta que os filmes da minha vida foram vistos até à exaustão em cassetes VHS gastas, não é nada que me tire o sono.

The Cabin in The Woods (2012), de Drew Goddard

Não é todos os anos que se pode assistir a um filme norte-americano tão arrojado como The Cabin in The Woods, a estreia atrás das câmaras de Drew Goddard (um dos argumentistas do Lost), que co-escreve o argumento com Joss Whedon.

Goste-se ou não, o resultado final é exatamente aquele que poderíamos esperar de um filme escrito pelo Whedon e pelo Goddard, ou seja, um produto delirante com toques de ficção científica e tiques de thriller sobrenatural, bem embrulhado num contentor recheado de ironia.

Não vou revelar muito do argumento (até porque fui ver o filme na ignorância e isso acabou por revelar-se uma boa política), mas asseguro-vos que são raros os casos em que a narrativa é capaz de se apropriar das convenções (e clichés) de um género (neste caso o terror slasher dos anos 80/90) ao mesmo tempo que as desconstrói de forma tão notável.

O único senão é que essa subversão diminui inevitavelmente o peso dos personagens e acabamos por nunca conseguir criar uma ligação emocional satisfatória com os protagonistas.

No entanto, não deixa de ser um filme engenhoso e bem construído, que demonstra que com jeitinho conseguem-se criar produtos originais e surpreendentes a partir de material reciclado.

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The Dark Knight Rises (2012), de Christopher Nolan

E pronto... acabou. O trabalho que Chris Nolan começou em 2005 acabou no momento em que os créditos finais do The Dark Knight Rises começaram a rolar (no universo Batman do Nolan não há espaço para surpresas depois dos créditos).

A trilogia que redefiniu para sempre a forma como os super-heróis poderiam ser adaptados ao grande ecrã - colocando-os na lista dos melhores filmes do ano sem que isso impedisse as enchentes nas binheteiras - chegou ao fim. Os anos de antecipação, as toneladas de posters e de marketing viral, as entrevistas, as teorias... tudo acabou. Este deveria ser o ponto mais alto da trilogia. O momento que todos esperávamos. O culminar de uma era gloriosa.

Então por que é que não saí da sala de cinema com aquela sensação de ter visto um grande filme? Por que é que fico desconfortável quando me perguntam o que achei do filme, como se tivesse vergonha de admitir que afinal... não é assim nada de especial?

No início (a primeira noite foi difícil) ainda tentei transformar alguns dos defeitos do The Dark Knight Rises em virtudes. Ainda tentei contra-argumentar com o meu cérebro, para minimizar os efeitos de uma desilusão descomunal. As linhas que se seguem foi o melhor que consegui fazer.

O tom geral do filme é irrepreensível. As ideias que Nolan trouxe para os dois filmes anteriores - a lealdade aos ideais, os perigos tanto do caos como da ordem, o poder dos símbolos - continuam lá. Os apontamentos humorísticos subtis e o ritmo sóbrio continuam intactos. A paixão de Nolan pela mitologia do Homem Morcego é mais do que evidente. Eu até gostei da voz do Bane (as inflexões à vilão do James Bond contrastam de forma exemplar com a aparência pétrea do personagem). Mas desta vez há demasiadas arestas por limar que acabam por minar a experiência do espetador mais dedicado.

Há personagens que desaparecem e aparecem só para dar um jeitinho ao argumento, há estórias mal contadas, há lógicas questionáveis, há demasiadas elipses e, acima de tudo, há um twist completamente questionável que acaba por tirar a força a um personagem até esse momento essencial na narrativa.

Ao contrário do que aconteceu em The Dark Knight, onde pouco ou nada se sabia do passado do vilão, Nolan encheu este último filme com explicações desnecessárias. São histórias e sub-histórias complexas cheias de reviravoltas que nada acrescentam à experiência final. Cada ação é imeditamente acompanhada pela sua explicação, não deixando espaço ao subtexto (veja-se o caso paradigmático da Catwoman : aquela que é indiscutívelmente uma das melhores personagens do filme, é também aquela da qual menos sabemos).

Por outro lado, a estrutura desde último filme é mais desajeitada do que nunca. Parece que Nolan se dedicou exclusivamente a criar capítulos, nigligenciando aquilo que acontece entre eles, não sei se por causa da edição ou do próprio argumento.

A sensação global é a de que aquilo que acabou por chegar aos cinemas é uma versão curta e apressada de algo maior e mais longo que, por causa das contingências de mercado, acabou por ser retalhada sem dó nem piedade.

Infelizmente não era este o fim que esperava. Mas continuo a confiar em Nolan e aguardo ansiosamente a extended version da trilogia em blu-ray, essa sim com as arestas limadas e uns acabamentos dignos do Palácio de Versailles.

A lenda não pode morrer assim.

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Prometheus (2012), de Ridley Scott

Prometheus não é apenas o regresso de Ridley Scott ao universo Alien. É o regresso do mestre a um género que o colocou na panteão dos geeks mais poderosos de Hollywood. Mas será que o bom e velho Scott ainda tem jeito para a coisa?

 

Depois de todos os disparates que foram feitos com o Alien (dos últimos capítulos da quadrilogia aos execráveis Alien vs. Predator), seria preciso uma abordagem radicalmente diferente para devolver alguma credibilidade a um dos personagens mais satirizados da sétima arte. Scott percebeu isso e, ao invés de regressar assumidamente ao franchise, resolveu criar uma prequela que afinal de contas não é bem uma prequela.

 

Apesar de estar ambientado no universo do filme de 1979 (as referências estão lá e são inegáveis), Prometheus trocou o xenomorfo por uma série de questões existenciais e filosóficas que, apesar de não serem novidade no género, dão uma agradável profundidade narrativa a um mundo até agora estanque (não me vou alongar muito neste aspeto porque é fácil minar a experiência de quem ainda não viu o filme).

 

No entanto essa profundidade não é suficiente para esconder a falta de ideias de um argumento recheado de personagens genéricas e situações previsíveis. A tensão, um dos pontos essenciais do Alien original, raramente dá o ar da sua graça (a exceção mais interessante é uma "cirurgia" especialmente bem conseguida), e o visual excessivamente esterilizado acaba por torná-lo num produto inorgânico e sem alma.

 

Curiosamente, o ponto mais interessante do filme é também ele inorgânico e sem alma. David, o andróide enigmático e inquietante interpretado por Michael Fassbender, acaba por roubar facilmente o filme. Se as restantes personagens tivessem um terço do desenvolvimento de David, a experiência seria muito mais satisfatória (e ainda estou para perceber porque raio é que escolheram o Guy Pearce e não alguém mais velho. Poupavam na maquilhagem e o resultado final seria certamente mais credível)

 

Prometheus não é um filme especialmente mau. É apenas mais um dos rebentos de uma geração de blockbusters genéricos visualmente fantásticos mas muito pouco corajosos à hora de subverter os mecanismos da linguagem cinematográfica.

 

Mais do mesmo, portanto.

 

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Marvel's The Avengers (2012), de Joss Whedon

Que não haja equívocos: The Avengers não é um filme perfeito. Tem alguns problemas narrativos (o prelúdio é muito extenso e as motivações do vilão são irregulares) e não tem problemas em usar e abusar de um ou outro cliché (não vamos mais longe, todos os personagens  - e quando digo todos, são TODOS - foram construídos para chegar ao maior número de faixas etárias possível).

 

Dito isto, vamos ao que interessa.

 

The Avengers é, até ao momento, a experiência cinematográfica de entretenimento puro do ano. É aquele filme para ir ver com o maior número de amigos possível, quantas mais vezes melhor. É aquele filme para ser citado em conversas de café até à exaustão (Hulk: Smash!). É aquele filme que vai fazer disparar as vendas das BDs da Marvel (para além dos óbvios The Avengers, aconselho-vos a dar uma vista de olhos aos Ultimates do Mark Millar, onde o filme de Joss Whedon foi buscar muita inspiração). Enfim, é o filme mais cool do ano (o The Dark Knight Rises também pode vir a ser cool, mas vai, seguramente, ser mais contido e introspetivo).

 

Não é nenhum exagero afirmar que desde o primeiro Iron Man que o cinema de super-heróis não era tão divertido e bem trabalhado (as experiências semi-falhadas do ano passado - Captain America e Thor - mostram a dificuldade em fazer estes filmes sem cair no ridículo e nos lugares comuns). Dos diálogos ao ambiente, passando pela caracterização emocional dos personagens, tudo em The Avengers flui como um rio em direção a um mar de boa disposição e awesomeness.

 

É certo que não é um filme contido (nem o poderia ser), mas é um filme que se sabe controlar. Apesar da quantidade de egos que tem de equilibrar num espaço de tempo tão curto (não só de atores, mas também de personagens), o resultado acaba por ser uma massa homogénea de entretenimento, super-heroismo e humanidade (felizmente Joss Whedon nunca esqueceu a faceta mais humana dos personagens), que não passa despercebida a ninguém.

 

Curiosamente, é interessante constatar que o personagem que mais se destacou (o excelente Hulk do não menos excelente Mark Ruffalo), é aquele que mais problemas tem dado a adaptar ao cinema. Quererá isto dizer que o Hulk só trabalha bem em equipa? Veremos. 

 

The Avengers não está isento de problemas, como já referi, mas estes ficam mais do que diluídos no excelente resultado final. Sentem-se bem confortáveis e aproveitem a viagem. Destes não há muitos.

 

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War Horse (2011), de Steven Spielberg

Há décadas que Steven Spielberg é atormentado por um fantasma que insiste em lhe roubar o mérito e a credibilidade. Por muito que tente escapar - e na década de 2000 assistimos a um outro Spielberg, mais sóbrio, menos emocional - recai nos seus ombros a responsabilidade de ter criado essa entidade negra que atormenta os críticos de cinema um pouco por todo o mundo: o infame blockbuster.

No entanto, o que muitos parecem esquecer é que o Spielberg não pertence, nem nunca pertencerá ao lote de descartáveis como Michael Bay ou Brett Ratner. O cinema de Spielberg consegue mover multidões, é certo, mas fá-lo com uma pujança emocional e um domínio exemplar da linguagem cinematográfica que, mesmo que se notem a léguas os mecanismos que utiliza para nos manipular - a música que entra naquele momento tão oportuno, ou aquela câmara que teima em fazer um zoom direto à alma dos protagonistas - não conseguimos evitar mergulhar de cabeça no seu universo de emoções.

War Horse é isso mesmo: uma viagem a um universo recheado de personagens e emoções, por vezes cómicas, por vezes cruéis, exemplarmente colocadas em cena pelo realizador. Desta vez Spielberg trocou as praias e os campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, pelas trincheiras da Primeira Guerra, usando um cavalo como fio condutor das várias estórias cruzadas. Para ajudar a recriar a beleza dos cenários rurais do interior da França do início do século XX, o realizador contou com a ajuda preciosa de Janusz Kaminski, o seu diretor de fotografia de estimação, que tornou este épico hípico num dos exercícios visuais mais bem conseguidos do ano.

Não é um filme de atores - a estrutura episódica do argumento não o permite - mas está recheado de secundários de luxo que acrescentam solidez e coesão a uma narrativa com algumas debilidades estruturais.

Bem sei que a lamechice já não está na moda. Mas eu, infelizmente, como lamechas incurável que sou, não posso deixar de recomendar este regresso de Spielberg aos velhos tempos - afinal de contas este homem é um dos grandes responsáveis pelas fortes doses de magia que pautaram a minha infância.

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Hugo (2011), de Martin Scorsese

Se é verdade que à primeira vista o The Artist e o Hugo não poderiam ser mais diferentes - o primeiro é um filme mudo, a preto e branco, reproduzido em 4/3 e o segundo é um portento tecnológico, filmado com câmaras caríssimas e recheado de CGI - também não deixa de ser verdade que ambos partilham a mesma essência: uma alma recheada de amor pelo cinema.

Baseado num conto infantil do norte-americano Brian Selznick, Hugo conta-nos a história de Hugo Cabret, um orfão obcecado por descobrir o que se esconde por detrás de um misterioso autómato avariado. A sua curiosidade vai levá-lo até um não menos misterioso vendedor de brinquedos que esconde um passado ilustre no mundo do cinema (não, não vou dizer quem é. Se o trailer não quer falar disso, quem sou eu para o fazer?).

Hugo não é um épico de fantasia, à la Harry Potter. Tem magia, é certo, mas é uma magia genuína: uma espécie de meta magia que se encontra na própria essência do cinema (lembram-se da Amélie? A ideia é a mesma, mas em 3D e sem o Yann Tiersen).

Martin Scorsese esqueceu, por momentos, a sua paixão pela violência extrema e forjou 2 horas de puro storytelling sobre a memória e o património cinematográfico (uma causa defendida publicamente pelo próprio) que pode ser apreciada por toda a família (ok, admito que pode ser um problema quando os petizes quiserem conhecer a filmografia do realizador e os pais lhes tiverem que explicar o que é o Taxi Driver ou o Raging Bull, mas isso é outra história).

Não é perfeito, é certo - apesar de ser tecnicamente irrepreensível, a narrativa é demasiado linear, tem uma série de arcos narrativos secundários que mereciam um maior destaque, e quem entra na sala do cinema com o trailer em mente corre o risco de ficar desiludido. No entanto é incrivelmente genuíno, o que para uma produção milionária deste calibre é dizer muito.

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Blogue a 24fps que não necessita de óculos 3D. Online desde 2003.

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