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O homem que viveu ao contrário



Não tentem isto em casa. Principalmente se não
confiarem no vosso desodorizante.



Tinha pensado começar esta 'reflexão' (porque é uma palavra bem mais carinhosa do que 'crítica') com um "E há filmes assim". Uma frase simples, concisa e, acima de tudo, universalmente aceite. No entanto, depois de a escrever pareceu-me uma expressão tão banal e isenta de sentido que me vi obrigado a rodeá-la de aspas e a empurrá-la, com um valente safanão, para um lugar de menor destaque. "The Curious Case of Benjamin Button" merecia melhor. E merecia-o por uma simples razão: não só estamos perante o melhor filme estreado no que vai de ano como também estamos na presença de uma das obras mais completas e emotivas das últimas três décadas.

A estória, essa, anda pelas bocas do mundo: Benjamin Button nasceu decrépito, artrítico e quase cego por culpa de umas cataratas que só se deveriam manifestar no ocaso da vida. Todos lhe davam poucos anos de vida. No entanto, contra todas as expectativas, ele não só sobreviveu como começou inexplicavelmente a rejuvenescer. Nasceu velho e ao que tudo indicava ia morrer novo. Não há nada que enganar.

Acabada que está a nota introdutória - e guiando-me pelo grandioso bestseller 'Como fazer críticas, para tótós' - chega a altura em que devo apresentar os argumentos contra e a favor da minha avaliação. Ou pelo menos chegaria se eu estivesse a fazer uma 'crítica' dita convencional. Falar deste filme é um caso bicudo. E ainda mais bicudo fica se o pretendermos fazer através de um texto que se quer objectivo. Há tanto de humano neste pedaço de cinema que seria um crime não nos deixarmos envolver na sua magia em troca de uma objectividade que tem tanto de insípida como de injusta.

Em primeiro lugar, é extraordinário constatar a diversidade temática que se alcança com uma simples inversão do paradigma da existência. Ver o quotidiano de alguém como o Ben Button - que se vê obrigado a viver a meninez, não a desejar ser bombeiro ou pirata, mas a ansiar por mais uma dia de vida - levanta, no mínimo, toda uma série de questões existênciais sobre as quais o espectador é emocionalmente 'obrigado' a reflectir.

A vida de Button passa pelas mesmas etapas e debruça-se nos mesmos temas que a nossa humilde aparição terrena. Amizade, maternidade, paixão, companheirismo, realização pessoal, encontros/desencontros. Tudo isto anda por lá. No entanto, a 'pequena' alteração introduzida (começar a coisa pela parte 'chata'), magistralmente encadeada no argumento de Eric Roth ("Forest Gump"), revela-nos aspectos que de outra forma continuariam escondidos atrás da máscara da normalidade.

"The Curious Case of Benjamin Button" é acima de tudo uma estória de vida que nos vem relembrar mais uma vez o maravilhoso que é estar vivo e o erro em que estamos a cair quando resolvemos dar seja o que for como garantido.

A vertente existêncialista torna-se ainda mais óbvia no momento em que encontramos na passividade de Benjamin Button um pouco de Meursault, o desconcertante protagonista do "L'Étranger" de Camus. Button é um agente passivo na sua própria vida. Deixa-se levar ao sabor da quarta dimensão, como se tudo estivesse fora do seu controlo. É raro ver o personagem de Pitt a manifestar uma emoção ou um desejo. O único elemento externo capaz de causar alguma perturbação no seu sistema de vida escrupulosamente oleado, é Daisy, o personagem da sublime (mais uma vez) Cate Blanchett. Esta não se limita a ser o vulgar interesse feminino do protagonista - que todos os filmes dignos desse nome têm que ter. É uma missão. É a recompensa pela qual Button teve que lutar toda a sua vida.

Porém não nos podemos esquecer que estamos a falar de um objecto cinematográfico. Tudo isto só faz sentido se for traduzido convenientemente através dos mecanismos próprios da linguagem cinematográfica. Felizmente estava por detrás das câmaras alguém que domina o assunto como poucos.

David Fincher é um realizador extraordinário e dotado de uma imaginação prodigiosa. "Fight Club" foi apenas uma amostra. Mesmo tendo entre mãos material considerado 'Óscarizável' - e todos sabemos as cedências a que esse peso pode levar - Fincher fugiu sempre do óbvio. Nada de musiquinhas manipuladoras e planos cerrados a apelar à lágrima fácil. O humor negro de Fincher é uma constante (de recordar o homem que foi sete vezes atingido por um raio), e a sua visão particular do mundo (como relógio fatal) tem um dos seus expoentes máximos numa genial sequência que faz alusão à teoria do caos.

Agora que levanto os olhos e reparo na montanha de letras que já escrevi - e que provavelmente ninguém vai ter paciência para ler - constato que está na altura de acabar por aqui a minha 'reflexão'. Para todos aqueles que cortaram caminho pelo texto  - directamente para estas palavras finais - em busca de algo que possa resumir o que já foi dito, apenas uma coisa: "E há filmes assim."

 

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