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Whatever Works: Dificilmente poderia funcionar melhor

 
Whatever Works de Woody Allen | 2009

 

De vez em quando surgem dois ou três clichés que tornam a vida do crítico de cinema (ou do aspirante a critico de cinema) bem mais fácil. Neste momento é comum ouvirem-se aos pontapés coisas como "O Avatar tem bons efeitos especiais mas a história não vale nada" ou "Animação boa só mesmo a do Miyazaki" ou então "O Woody Allen dos anos 70 é que era". Afinal de contas, se há tanta gente a repeti-lo é porque deve ser verdade. É fácil de decorar e ajuda a dar um ar de entendido, mesmo que nunca tenhamos visto um filme do Allen na vida.

Pois, na opinião deste modesto servo, nem o Woody Allen "do antigamente" era assim tão genial, nem o novo Woody Allen é assim tão mau. Vicky Cristina Barcelona, por exemplo, é um óptimo filme. Sólido e profundo, como se quer um bom filme existencialista. Confesso que estou curioso para ver o que os detractores do novo Woody Allen vão achar de Whatever Works. Afinal de contas, apesar de ter sido filmado no século XXI, o argumento foi escrito por Allen nos anos 70. Estaremos perante um paradoxo capaz de fazer implodir toda a raça de críticos de cinema?

Mas vamos ao que interessa: A expressão Whatever Works (pessimamente traduzida para português) representa a filosofia do protagonista Boris Yellnikoff, interpretado na perfeição por Larry David (o incansável co-argumentista de Seinfeld e protagonista de Curb You Entusiam), que vive a vida sem fazer grandes planos, limitando-se a aceitar as coisas "desde que elas funcionem". Yellnikoff é demasiado genial para compactuar com as regras da nossa sociedade subdesenvolvida. Em tempos foi proposto para o prémio Nobel da Física, é divorciado, maniaco-depressivo, hipocondríaco e sofre de umas pontuais tendências suicidas. Para além disso ganha a vida a ensinar crianças a jogar xadrez (não sei se ensinar é a palavra mais adequada, mas à falta de melhor ficamos com esta). Ele aparece-nos como o único ser humano capaz de ver o mundo como ele é, e como tal, numa engenhosa manobra de Allen, é o único personagem a perceber que está num filme e a quebrar constamente a quarta barreira.

Um dia conhece Melody St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood), uma inocente parola do sul, e , como não quero estragar nenhuma surpresa vou terminar a minha sinopse introdutória por aqui. Digo apenas que Allen fugiu, e graças a Deus, à habitual relação life changing e, consequentemente, à visão romântica e platónica da sociedade. Apesar de rude e antipático, Yellnikoff é o único personagem que esteve certo desde o princípio e, provavelmente, o único que se mantém inalterado ao longo do filme (bem, quase...).

Whatever Works é um conto moral com excelentes diálogos e recheado de humor. Em nenhum momento nos tenta impingir valores e ideologias (à parte da ideologia de aceitarmos a nossa própria ideologia), e isso faz dele um produto surpreendentemente refrescante. Se calhar, no fim, ficamos com aquela sensação de tudo ter funcionado bem demais e de faltarem algumas explicações... Mas para quê mais explicações se tudo funciona tão bem assim?

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