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O voo e a queda do cisne


O último de Aronofsky é um daqueles produtos constrangedores e claustrofóbicos que se colam durante semanas a uma parte pouco acessível do nosso cérebro. Durante quase duas horas somos brutalmente transportados para um mundo hermético e depressivo onde a perfeição e a felicidade parecem conceitos saídos de um outro universo, demasiado estranho e inalcançável.

 

A câmara ao ombro, voluntariamente imperfeita e intimista, está quase sempre fixada em Nina (Natalie Portman no papel que pode definir uma carreira), uma bailarina de Nova Iorque obcecada pela perfeição formal e assombrada por uma complexa relação familiar. Acompanha a sua ascensão reproduz as suas dúvidas, brinca com as suas fraquezas e viaja até ao seu subconsciente. No final da viagem não temos todas as respostas. Mas também não precisamos delas.

Da fantástica fotografia de Matthew Libatique (um dos homens fortes de Aronofsky desde os tempos do Pi), à banda sonora de Clint Mansell, tudo se encaixa na perfeição no puzzle formal do realizador.

Mas nem tudo é perfeito em Black Swan. Quando nos afastamos do plano formal, a estrutura montada por Aronofsky começa a tremer. O motor narrativo é explorado até à exaustão e a dualidade branco/negro é tratada com a subtileza de um trator num concerto de música clássica. Todas as cenas parecem querer-nos lembrar à força que para cada Dr. Jekyll há um Mr. Hide sedento de sangue escondido do outro lado do espelho (aliás, o espelho é um dos adereços mais recorrentes no filme).

O facto de tudo poder ser arrumado na estante do branco e do negro acaba por arrastar Black Swan para o precipício dos lugares comuns e dos clichés. Não conseguimos deixar de lado uma constante sensação de dejá vù quando somos apresentados aos personagens e às situações. Tudo é demasiado unidimensional para uma obra que pretende afirmar um certo grau de profundidade narrativa. É verdade que a estrutura simplista ajuda a construir uma parábola onde os personagens podem exprimir o aspeto chave da sua personalidade até ás últimas consequências, mas por vezes sentimos falta dos cinzentos.

Feitas as contas, apesar dos pontos mais "negros", artisticamente Black Swan é um produto exemplar. Foi claramente feito para ser apreciado e reapreciado numa sala de cinema e é uma excelente forma de despertar a curiosidade do espectador mainstream (para o qual o filme foi talhado) para o cinema de autores como Lynch ou Polansky.

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