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Super 8 (2011), de J.J. Abrams

 Se há coisa que marcou indubitavelmente a minha infância foi o bacalhau assado da minha avó. Ainda hoje começo a salivar que nem um perdido só de pensar naquelas batatas meticulosamente trabalhadas para absorver a quantidade ideal de azeite. Há uns anos tentei reproduzir o prato. Pedi a receita à minha avó e segui tudo à risca. Cortei as cebolas milimetricamente e calculei o azeite necessário para lhe dar o tal sabor especial. O resultado foi bom. Foi provavelmente o melhor bacalhau que já cozinhei mas estava a anos luz do bacalhau da minha avó. Ora, se eu utilizei os mesmos ingrediente e segui as medidas à risca... porque é que isto aconteceu? Não sei. E desconfio que o J.J. Abrams também não sabe.

 

A ideia por detrás do Super 8 era simples: homenagear o cinema familiar de ficção científica/fantasia dos anos 80. J.J. Abrams chamou uma série de crianças, inseriu-as num bairro americano comum e apresentou-lhes-lhes um elemento de uma outra realidade que os iria levar a viver a aventura das suas vidas (E.T.? Goonies? Gremlins? É só escolher). Não faltaram as referências de aquecer o coração (uma paixão ternurenta pelo cinema ou um colar, símbolo de um amor intemporal) e alguns dramas familiares e rivalidades por resolver. Tudo isto apimentado com um humor inocente e agradável. Está tudo lá, pronto para atacar o glândula da nostalgia e fazer as delícias de quem viveu numa altura em que Spielberg era Deus.

 

No entanto, a verdade é que a coisa não funciona como nós gostaríamos. A magia perdeu-se algures. Aquela inocência que esperávamos encontrar não está lá. Sentimos desde o início que aquilo não é autêntico apesar de não conseguirmos perceber exatamente porquê. Não sei se a culpa é dos lens flares, do monstro em CGI, ou do déjà vu constante, mas sei que algo falha.

 

Não me interpretem mal, Super 8 não é um mau filme. As crianças estão surpreendentemente bem, com uma química sincera e palpável, as sequências de ação são fantásticas (atente-se na sequência do descarrilamento) e a narrativa está bem construída (apesar de não ter nada de realmente surpreendente ou memorável).

 

No entanto não tem aquele feel dos anos 80 da mesma forma que o meu bacalhau, apesar de ter sido feito a partir da mesma receita, não sabe ao mesmo que o da minha avó. Ao não conseguir apelar à nostalgia acaba inevitavelmente por perder o seu maior trunfo.

 

Admito que, por exemplo, o The Hole do Joe Dante, que estreou em Portugal no início do ano, consegue transportar-nos para esse cinema de forma mais autêntica, mesmo sendo um filme com uma ambição diferente. Mas, pensando bem isso nem é de estranhar. Afinal de contas Joe Dante continua a ser Joe Dante e o J.J.Abrams, ao contrário do que gostaríamos de acreditar, não é o Spielberg.

 

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