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12 Years a Slave (2013), de Steve McQueen

Quando vemos a mestria com que Steve McQueen controla a câmara naquele imenso e brutal plano sequência algures no terceiro ato de "12 Years a Slave", é difícil acreditar que esta é apenas a terceira longa metragem do realizador londrino. 

Há muita coisa para gostar em "12 Years a Slave", a começar pela escolha de Chiwetel Ejiofor . Para que um filme destes funcione (e por "destes" entenda-se "dramalhão histórico baseado numa história verídica relativamente desconhecida"), o protagonista tem de se transformar no seu personagem. Isso só acontece se a) o protagonista for um ator do caraças e b) não soubermos o nome dele de cor. Ora, Ejiofor, para além de ter um nome que me obriga constamente a ir ao IMDb fazer copy paste, consegue destruir-nos emocionalmente com um simples franzir de testa. O seu Solomon Northup é uma subtil mas poderosa construção emocional, só ao alcance dos melhores.

Em termos globais isto não serviria de nada se Ejiofor não fosse apoiado por um elenco de secundários sólido. Paul Giamatti, Paul DanoBenedict Cumberbatch, embora não tão presentes, ajudam a construir de forma exemplar a textura geral desta narrativa, com os dois primeiros a representar a face mais cruel da escravatura e o terceiro a encarnar o homem nobre mas frágil, rendido a uma sistema que o pode esmagar a qualquer momento. 

A Michael Fassbender, colaborador de longa data de McQueen, calhou-lhe o imprevisível e assustador Edwin Epps, o verdadeiro nemesis emocional de Northup. Que Fassbender era uma besta (no melhor dos sentidos), já todos sabíamos. Mas não deixa de ser surpreendente o que este tipo nos consegue fazer sentir em tão pouco tempo.

Do lado feminino o destaque vai para Lupita Nyong’o, esta sim verdadeiramente desconhecida, que dá rosto a Patsey, o personagem mais trágico do filme (mais ainda que o próprio Northup), que teve o azar de se transformar no objeto de desejo do seu dono e, consequentemente, alvo dos ciúmes de uma cruel Sarah Paulson.

Se tudo isto é essencial para tornar "12 Years of Slave" num dos filmes do ano, aquilo que mais me agradou foi a forma crua com que McQueen não teve medo de contar uma história feita para os Óscares, despindo-a de qualquer artefacto emocional. Onde alguns pornógrafos da desgraça como Lee Daniels ou Iñarritu optariam por um grande plano cravado de lágrimas e uns violinos deprimidos a chorar em fundo, McQueen escolhe planos afastados, coloridos apenas com os sons do quotidiano, que fazem brilhar o trabalho de fotografia de Sean Bobbitt. Há um afastamento emocional, a roçar o documentário, que não nos deixa, em nenhum momento, sentir manipulados.

"12 Years a Slave" é um objeto único. Emocional sem ser lamechas, duro sem ser gratuito, que dá uma cara e um nome a uma das facetas mais cruéis da humanidade. 

(****)

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