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Cidadão Zuckerberg

por JBM, Sexta-feira, 18.02.11



Não é dificil perceber porque tantos críticos norte-americanos comparam The Social Network a Citizen Kane. À primeira vista está lá tudo o que fez do filme de Orson Welles um dos maiores filmes de todos os tempos: a obsessão, a ascensão meteórica, as lutas de poder, as traições, e, acima de tudo, as frustrações. Eu arriscar-me-ia a dizer que as frustrações pessoais são o grande motor narrativo de The Social Network.

Ora vejamos: Zuckerberg começa a sua criação mais brilhante depois de ter sido rejeitado por uma rapariga (se este filme tivesse um rosebud seria Erica Albright); os gémeos Winklevoss resolvem finalmente avançar com um processo depois de uma derrota desportiva frustrante; o Eduardo sente-se frustrado por ter sido "trocado" por Sean Parker e começa a incompatibilizar-se com Zuckerberg. Precisam de mais provas?

Mas interpretações à parte, é impossível não reparar no guião quase perfeito de Aaron Sorkin. Aposto um balde de pipocas em como daqui a uns tempos este guião vai estar a ser usado nas escolas de cinema para ensinar aos futuros argumentistas a noção do ritmo através dos diálogos. Tudo é tão perfeito e fluído que acaba por transformar as duas horas reais num flash psicológico.

No entanto, há algo que falta a The Social Network para que seja considerado uma obra prima. Chamem-lhe desfecho, conclusão ou moral da história. O que é certo é que este filme acaba a meio do jogo. Deixa-nos a salivar por mais e a tentar adivinhar as consequências finais da personalidade obsessiva e arrogante de Zuckerberg - talvez seja mais uma frustração intencional para se juntar às outras referidas anteriormente. Aqui a culpa não é de Fincher, de Sorkin nem de nenhum dos intervenientes mas sim da realidade demasiado recente.

Em relação ao elenco, se é verdade que Jesse Eisenberg é o génio nerd antisocial perfeito, para mim a grande surpresa foi Andrew Garfield. Desde o primeiro instante que este melhor amigo inocente e sonhador consegue estabelecer uma ligação emocional genuína com o público. Esperemos que a via rápida que se prepara para apanhar com o novo Spider-Man não acabe por corromper o seu talento (o caminho dos blockbusters nem sempre é fácil de suportar). E já agora, porque não estou a ver isto acontecer outra vez tão cedo, aqui fica o meu elogio a Justin Timberlake (sim, estou a elogiar Timberlake... nunca pensei que este dia chegasse), um odioso playboy que me fez ter vontade de atirar uma pedra ao grande ecrã.

De salientar ainda (como se fosse preciso) a mestria de Fincher, não só à hora de nos brindar com uma realização clássica e carismática - inteiramente ao serviço do guião de Sorkin - mas também à hora de integrar os efeitos digitais na narrativa. Com a ajuda do corpo de Josh Pence e da tecnologia que rejuvenesceu Brad Pitt em The Curious Case of Benjamin Button, Armie Hammer duplicou-se nos gémeos Cameron e Tyler Winklevoss. Nem desconfiaram? Pois isso é um ótimo sinal.

 

* publicado originalmente a 8 de Novembro de 2010

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